Toda ouvidos

por Um Por Todos – Tulipa Ruiz

Minha mãe sempre gostou de canto coral. Quando morávamos em Minas, ela me pilhava para estudar canto. “Soprano”, descobri nas aulas. Cantamos juntas muitas vezes. No começo deste ano, ela voltou para Sampa. Foi a minha vez de incentivá-la a cantar. Aos poucos, ela está redescobrindo que o barato da cidade grande está na arte, nos encontros e na arte dos encontros.

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Animada, entrou para um pequeno e novo coral do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Mamãe gostou da ideia de um grupo estreante e se encantou pela maestrina do coro, Marisa. Fui assistir a primeira apresentação do bando e aquela regente me pareceu familiar. Marisa… Marisa… Lembrei. Marisa Fonterrada, educadora musical, escritora, antropóloga, psicóloga e tradutora dos livros do compositor canadense Murray Schafer, inventor do conceito de paisagem sonora, pensado com a finalidade de analisar o universo sonoro que nos rodeia.

Havia entrevistado Marisa na minha época de jornalista, em um projeto de educação musical. Naquele tempo, eu ainda não cantava profissionalmente e estava completamente alucinada com o conceito de paisagem sonora. Tinha acabado de voltar de uma oficina de field recording na Amazônia, onde passei dias gravando sons naturais para depois manipulá-los no computador. Por conta dessa vivência, devorei os livros do Schafer e fiquei muito interessada em Marisa quando descobri que ela era sua tradutora no Brasil.

Lembro de sair da entrevista transbordada de admiração por ela. Que coisa balsâmica, anos depois, descobrir que ela é a regente do coral que minha mãe escolheu para cantar. Eu e minhas subjetividades nos emocionamos em uníssono. Saí da apresentação e fui correndo vasculhar minhas prateleiras virtuais para achar a entrevista que tinha feito com ela. Encontrei em um e-mail empoeirado. No papo, minha sede era saber sobre sua pesquisa com Schafer e sua experiência no ensino da música.

A entrevista não está no ar porque o site que a publicou na época não existe mais. Mas fiquei com vontade de compartilhá-la de novo, por conta da sintonia dos encontros, das sincronicidades e sobretudo por conta do atual desmanche na educação.

Com vocês, direto do túnel do tempo, a entrevista que fiz com Marisa Fonterrada em 2007.

Viva os encontros. E viva a música viva nas escolas.