Roteiristas de A Vida Invisível falam sobre o processo de adaptação literária do longa

Por Marcella Affonso

Representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar 2020 de Melhor Longa-Metragem Internacional, o filme A Vida Invisível (2019) retrata, em tom de melodrama, as desventuras das irmãs Guida (interpretada por Julia Stockler) e Eurídice Gusmão (Carol Duarte). O cenário é o Rio de Janeiro dos anos 1950. Criadas por uma família conservadora em meio a uma sociedade rigidamente patriarcal, as jovens de 20 e 18 anos crescem compartilhando sonhos e planos até serem separadas pelo pai, que expulsa Guida de casa por uma gravidez antes do casamento. Forçadas a viver distantes uma da outra, elas passam a vida sem perder a esperança de se reencontrar.

Escrito pelos brasileiros Karim Aïnouz – que também assina a direção do filme – e Murilo Hauser e pela uruguaia Inés Bortagaray, o roteiro é uma adaptação do romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, livro de Martha Batalha lançado pela Companhia das Letras em abril de 2016. E foi justamente o processo de transposição dessa narrativa literária para a linguagem audiovisual o tema da sétima e última mesa de debates da terceira edição do Fórum Mostra Internacional de Cinema, evento que ocorreu entre os dias 23 e 25 de outubro no Itaú Cultural.

“De largada, o desafio foi descobrir qual era a história do filme de fato, porque o livro tem muitas”, relembrou Hauser durante o debate, que, além dos outros dois corroteiristas, contou com a presença da diretora assistente do filme, Nina Kopko, e do produtor da obra, Rodrigo Teixeira. Para compreender o todo da história original e encontrar um recorte que pudesse ser transformado em material cinematográfico, a primeira etapa foi desconstruir o texto de Martha e colocá-lo em ordem cronológica. “O livro tem muitos pulos, o que na literatura funciona extremamente bem – a Martha é muito habilidosa nesses pulos –, mas que não necessariamente funcionaria em uma narrativa cinematográfica”, observou o roteirista.

Outro obstáculo apontado foi a necessidade de modificar partes da trama sem deixar de ser fiel ao espírito do livro e dos personagens. Na literatura, a introvertida Eurídice passa a vida buscando ocupações para expressar-se e sentir-se viva: quis tocar flauta, publicar receitas culinárias, costurar para fora, empreitadas sempre boicotadas pelos pais ou pelo marido. O mesmo não ocorre no filme. Para dar conta de representar essa ideia, no longa ela sonha unicamente em se tornar uma musicista profissional e o instrumento de sopro é substituído pelo piano, de maior corpo.

Nesse sentido, houve ainda a inserção na história do personagem Yorgus (Nikolas Antunes), o marinheiro com o qual Guida foge para a Grécia antes de ser expulsa de casa. No texto original, a primogênita também deixa a família para viver com o namorado, mas não há nenhum marujo grego e ninguém sai do Rio de Janeiro. “A ideia da Guida sair de casa no livro é um pouco o sonho de viver esse amor romântico, de viver uma grande aventura de amor, e nada mais bonito cinematograficamente do que a ideia desse amor distante. E isso também fez com que no filme o desencontro delas se tornasse muito mais palpável”, contou.

O roteiro, que começou a ser escrito no fim de 2015, passou por cerca de dois anos de maturação até atingir sua estrutura final. O processo de inserção de novas ações e diálogos no texto, contudo, perdurou até o set de gravação. “Era sempre uma via de mão dupla. A gente alimentava o roteiro [com base no que havia ocorrido durante os ensaios] e depois o trazia de novo para a sala de ensaio […]. Mesmo depois, dentro do set, o que traziam dentro da locação poderia influenciar no roteiro”, comentou Nina.

Questionada por uma pessoa da plateia sobre o que do livro havia na obra, a equipe foi enfática ao afirmar que, apesar de alguns elementos terem sido modificados, a história e a gênese das figuras originárias estavam todas lá. “E a Martha foi muito generosa nesse sentido”, compartilhou Karim sobre a autora, que não interferiu na construção do roteiro. Comparando-se a um trapezista que dispõe de uma rede para o amparar caso caísse, o cineasta chamou a atenção para uma das especificidades de se debruçar sobre uma história já contada. “Se há uma coisa de singular no filme é que esses personagens são de carne, osso e alma, e acho que isso vem do processo de adaptação.”

Vencedor da mostra Um Certo Olhar,do Festival de Cannes deste ano, o longa-metragem, que conta com a participação especial de Fernanda Montenegro (a intérprete de Eurídice na maturidade), estreou no Brasil em 21 de novembro de 2019.